COMPORTADAS ATÉ A MORTE
Tudo que está vivo se comporta. Uma ameba se move em direção à luz. Uma planta gira em direção ao sol. Um cachorro fareja o ar em busca do cheiro que interessa. Comportar-se é a prova mais elementar de que se está vivo, é reagir ao mundo, é se mover em relação a ele, é responder ao que se deseja ou ao que ameaça.
Só que, quando se trata de mulheres, a palavra "comportamento" foi sequestrada. Deixou de significar reagir ao mundo. Passou a significar desaparecer nele.
A GRAMÁTICA DO "SENTA DIREITO"
Isso começa cedo, e começa pelo corpo. "Senta direito." "Fala baixo." "Menina não fica de perna aberta." "Não corre assim, parece um menino." A menina não está sendo educadas, está sendo treinada.
Foucault chamava isso de produção de corpos dóceis: um poder que não precisa de correntes porque atua nos gestos mínimos, na postura, no tom de voz, na forma de rir. Um poder que se exerce vigiando e corrigindo até que a vigilância vire hábito, e o hábito vire identidade.
Menina boa é menina quieta, mulher de respeito é mulher discreta. E discreta, convenhamos, é só uma palavra mais elegante para pequena.
PÉS PEQUENOS, CINTURAS PEQUENAS, VOZES PEQUENAS
A história tem versões físicas explícitas disso, na China imperial, o pé de lótus enfaixava os pés de meninas ainda crianças até que parassem de crescer, quanto menor o pé, maior o valor da mulher no mercado do casamento. Na Europa, o espartilho apertava a cintura a ponto de deformar costelas e órgãos, tudo em nome de uma silhueta que sinalizava recato e controle. Duas culturas, dois continentes, a mesma lógica: encolher o corpo é uma forma de garantir que ele obedeça.
E, no entanto, a mitologia grega guarda um contraponto curioso. As bacantes: mulheres que, nos rituais dionisíacos, deixavam a cidade para dançar descontroladamente pelas florestas eram o único momento em que a cultura grega tolerava o corpo feminino fora de controle. Eurípides escreveu uma peça inteira sobre o pânico que isso causava. Não é à toa: um corpo de mulher que dança sem pedir licença sempre foi, historicamente, motivo de alarme social.
A HISTÉRICA E A PERFORMANCE
A própria história da psicanálise nasce, em parte, observando esse alarme. As "histéricas" de Charcot e do primeiro Freud eram, muitas vezes, mulheres que excediam o comportamento esperado em afeto, em corpo, em fala e que a medicina do século XIX preferiu tratar como doentes a admitir como incômodas.
Um século depois, Judith Butler deu nome mais preciso a esse mecanismo: gênero não é algo que se é, é algo que se faz repetidamente, através de atos, gestos e comportamentos estilizados que, de tanto repetidos, parecem naturais. Em outras palavras: você não nasceu comportada. Foi treinada, dia após dia, gesto após gesto, até que a performance virasse pele.Simone de Beauvoir já tinha dito, décadas antes, a versão mais direta disso:
ninguém nasce mulher, torna-se.
MATAR O ANJO DA CASA
Virginia Woolf tinha um nome para o fantasma que toda mulher que tenta existir plenamente precisa enfrentar: o Anjo da Casa. Simpática, charmosa, que nunca tem opinião própria, que se sacrifica sem reclamar, que adivinha o desejo dos outros antes do seu. Woolf disse que, para conseguir escrever, precisou matá-lo porque enquanto ele sussurrasse em seu ouvido, ela jamais diria a verdade sobre nada.
Ibsen escreveu isso em forma de peça décadas antes: Nora, a protagonista de Casa de Bonecas, passa a vida inteira sendo tratada como boneca do pai, do marido. Comportada, dócil, decorativa. A peça termina com ela batendo a porta e saindo. Na época, o final foi considerado tão chocante que alguns teatros o reescreveram para que ela ficasse.
Matar o anjo, bater a porta: são a mesma coisa. É a mulher se recusando a continuar comportada até o esgotamento de si mesma.
O PREÇO DE SER COMPORTADA
E o mais perverso é que nem funciona. Em 2024, mulheres brasileiras receberam salários, em média, 20,9% menores do que os homens em estabelecimentos com 100 ou mais empregados, com a diferença sendo ainda maior para mulheres negras. Fazer tudo certo também não resolve: nos cargos de alta gestão a diferença salarial chega a 26,8% a menos, e entre mulheres com diploma superior o gap sobe para 31,5% em relação a homens com o mesmo nível de escolaridade. opovoforbes
Ou seja: quanto mais você se qualifica, mais "comportada" no sentido produtivo estudada, competente, disciplinada maior a distância entre o que você entrega e o que recebe. A promessa era clara: se comporte, se esforce, se qualifique, e será recompensada. Os números mostram que essa promessa nunca foi cumprida o jogo nunca foi sobre mérito. Era sobre controle.
O QUE FICA QUANDO A GENTE PARA DE SE "COMPORTAR"
Deleuze e Guattari falavam do corpo sem órgãos: um corpo que se recusa a ser organizado, hierarquizado, codificado de fora para dentro. Não é o corpo sem limites, é o corpo que não aceita mais que outro decida qual função cada parte dele deve cumprir. Um corpo que volta a ser, antes de tudo, potência, não performance.
Talvez seja hora de devolver à palavra "comportamento" o sentido que a análise do comportamento sempre soube, mas que a cultura roubou: comportar-se não é encolher, é reagir ao mundo com toda a força que se tem. É a ameba indo em direção à luz, sem pedir permissão para o sol brilhar.
Nos comportar (como queremos) até a morte. Nosso lema. E do sol.
Nós fomos feitas para brilhar.

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