O INSACIÁVEL ME AGRADA
DESEJO NÃO É GANÂNCIA
Diariamente ouço mulheres que construiram uma vida interessante para si mesmas e mesmo assim algo não as deixa desfrutar e seguir sonhando e desejando mais da vida. Algo lhes diz que se deve em algum momento parar de querer tanto, de sonhar tanto, de desejar tanto. Que se deve pedir permissão para desejar mais um pouquinho, querer mais uma coisinha, bem pequenininha, bem singelinha...
É tão mais bonitinha aquela moçinha que quer só um maridinho, uma casinha e suas coisinhas não é? Parece que criaram para nós uma ideia de que se desejamos mais nós somos ingratas, gananciosas, indecisas, insaciáveis.
Bem, confesso que o insaciável me agrada. Afinal de contas, a saciedade não vem depois de comermos o suficiente?
A saciedade de vida não vem depois de comer o suficiente de vida? Quer dizer...já deu pra gente?

Espera-se que se coma pouco, que ocupe poucos espaços, que tenha pouca gordura, pouca massa, voz baixa, pequenos gestos, roupas, sapatos e casas modestas. Que se viva com modéstia, ria com modéstia e esteja modestamente alegre (ao menos por fora).
A mulher deve viver para o pouco, para o sutil, para o ínfimo ou...talvez tudo isso seja na verdade um grande NADA disfarçado de palavras bonitas. Nada de comida, nada de força, nada de falar, nada de andar por ai, nada de rir, não fale, não seja vista, nem ouvida e o mais importante NADA DE SER ALEGRE.
Para o Deleuze um dos filósofos franceses mais influentes do século XX, os afetos tristes são todos aqueles que diminuem nossa potência de agir. Ou seja, quanto mais tristes, mais impotentes e com menos força vital, menos energia para transformar a própria realidade. Quando pensamos num sentido ainda mais literal: nos é comunicado que a mulher deve, por exemplo, desejar a magreza extrema. Literalmente uma pessoa que não come não tem forças, não pensa direito, não vive bem, ou seja, é instigada a desejar sua própria servidão.
Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão com a beleza feminina, mas uma obsessão com a obediência feminina. - Naomi Wolf
Então é isso...se você tem um bom trabalho, ganha relativamente bem, mora numa casa confortável, consegue viajar, tem amigos, um bom relacionamento ou esta bem sozinha pronto: Já pode morrer né? Ou é o caso de seguir desejando? Vivendo? Incomodando?
Incomodando certo? Ainda que a maioria de nós tenhamos sido criadas a preferir morrer a incomodar o outro. Mas olha só...quem diria amiga, que o fato de você existir já iria incomodar o outro. Só de estar viva, belíssima e respirando já é por si só bem revolucionário. Meu bem, bell hooks já dizia:
Permanecer vivo diante de um sistema construído para te destruir é o primeiro e mais radical ato de resistência.

Então vamos! Vamos desejar sem fim. Desejar é viver. Enquanto desejo, vivo. E quando paro de desejar, morro. Seja essa morte biológica ou morte simbólica. Quem já viveu um período que parecia não ter desejos sabe que isso é bem pertinho de uma morte.
É isso que se espera de nós? A morte? Será?
O Brasil registrou um recorde histórico de 1.571 vítimas de feminicídio em 2025, conforme dados divulgados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública
E quando falamos de mulheres negras isso é ainda mais aterrador, não a toa que a renomada autora Conceição Evaristo diz:
"Combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer”
Quando dizemos para nós "eu quero mais!", bate uma pontada de vergonha, mal estar, angústia e medo? Como se pedir demais fosse, de alguma forma, defeito de caráter. Essa é a tentativa de te diminuir, silenciar, te matar em vida e se você não se atentar estará trabalhando para eles, a favor dos desejos deles e não dos seus. Isso me lembra um monte de mulher incrível que só existe em nossa memória porque ousaram desejar. Me lembra Françoise Sagan que aos dezoito anos escreveu sobre mulheres jovens que queriam prazer, liberdade e intensidade e a França bem-pensante da época a chamou de imoral. simplesmete porque ela se recusou a fingir que não desejava. Sessenta anos depois, a roupagem mudou, mas o mecanismo é o mesmo: ainda pedimos desculpas por querer.
A ARMADILHA DA FALTA
A psicanálise clássica, em boa parte da sua história, também reforçou essa lógica. Também ensinou que desejamos porque nos falta algo: um objeto perdido, uma completude original que nunca vamos recuperar. Desejar, nesse modelo, é sempre sintoma de uma ferida.
Deleuze e Guattari romperam com essa ideia de um jeito radical. Para eles, o desejo não nasce da falta, ele é produção.

Desejo é a força que cria conexões, que fabrica realidade, que constrói mundos possíveis. Você não deseja uma carreira melhor porque tem um buraco interno a preencher. Você deseja porque desejo é, por definição, aquilo que expande a vida.
A culpa que você sente ao querer mais não vem do seu desejo. Vem de uma cultura que ainda trata o desejo feminino como excesso a ser controlado, especialmente quando esse desejo não é só por amor ou por filhos, mas por dinheiro, por prazer, por tempo livre, por reconhecimento.
O QUE AUMENTA SUA POTÊNCIA DE AGIR
Spinoza tem um conceito que uso muito na clínica: os afetos podem aumentar ou diminuir a nossa potência de agir. Alguns encontros, escolhas e vínculos te deixam mais viva, mais capaz, mais você. Outros te encolhem, mesmo que sejam socialmente aceitáveis, mesmo que ninguém questione.
A pergunta que proponho não é "isso que eu quero é razoável?" é "isso que eu quero aumenta ou diminui minha potência de agir?" São perguntas completamente diferentes. A primeira te coloca sob julgamento. A segunda te devolve à sua própria bússola.
Talvez o problema nunca tenha sido o tamanho do seu desejo. Talvez o problema seja o quanto você aprendeu a negociá-lo por medo de ocupar espaço demais.
DESEJAR SEM PEDIR DESCULPAS
Não se trata de desejar sem ética, sem outros. Trata-se de parar de tratar o próprio desejo como suspeito, trata-se de sair da posição de quem precisa justificar cada "eu quero" com um motivo nobre o bastante para ser aceito.
Você pode desejar mais dinheiro sem que isso te torne superficial. Pode desejar mais prazer sem que isso te torne egoísta. Pode desejar mais tempo livre sem provar que "mereceu" descansar.

Pensar o desejo como força é nos devolver a capacidade de criar a vida que nos faz sentido, uma vida mais bela, mais interessante, mais forte e ativa. Parar de pedir licença e desculpas por desejar cada vez mais é abrir espaço para invenção de novos mundos. Mundos mais gentis com as mulheres, conosco, com nossas ancestrais, nossas filhas, nossas amigas. Desejar sem pedir desculpas é dizer ao mundo que nossa existência não é só válida mas é, uma força avassaladora capaz de revolucionar e mudar até a ultima gota de vida que nos saciará.
Ps: ou não
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